DISSEMINAÇÃO E DIÁSPORA
Luiz Fernando Medeiros de Carvalho – UFF
Por disseminação entendo um movimento incessante de sair de um ponto estável, expansão infinita da unidade que se divide proliferando a sua divisibilidade.
A diáspora mantém com a referência um vínculo de retorno ou de expectativa de retorno. Algum traço permanece que sobrepaira como fantasma da antiga configuração.
Assim é com o gastarbeiter turco na Alemanha, só para lembrar passagem em que Homi Bhabha comenta:
Tendo começado este ensaio com a necessidade que a nação tem de uma metáfora, quero agora voltar-me para os silêncios desolados dos povos errantes, para aquele “vazio oral”que emerge quando o t urco abandona a metáfora de uma cultura heimilich :para o imigrante turco o retorno definitivo é mítico[...]Na repeticção de gesto após gesto, o sonho sonhado por outro, o retorno mítico, não é apenas a figura de repetição que é unheimlich, mas também o desejo do turco de sobreviver, de nomear, de fixar – que é não-nomeado pelo próprio gesto. O gesto continuamente se sobrepõe e acumula, sem que sua soma faça dele um saber de trabalho ou labuta. Sem a língua que liga o saber e o ato, sem a objetificação do processo social, o turco vive a vida do duplo, do autômato.(Bhabha, 98)
Também participa do traço característico da diáspora o elemento de repetição: O re-estabelecimento da comunidade fronteiriça da imigração. A re-locação do lar e do mundo,o estranhamento que é a condição das iniciações extraterritoriais e interculturais. Estar estranho ao lar (unhomed) não é estar sem casa (homeless)
Parece-me que o conceito de diáspora em Homi Bhabha reapropria-se d o conceito de disseminação em Derrida. Da parte de Homi Bahbha há um escondimento da força disseminativa .O que estou propondo é o contrário: onde a diáspora aparece deve haver a contaminação pelo pólo disseminativo.
Em Derrida há sempre a iminência da divisibilidade, sustentando o paradoxo da divisibidadade.
O entranho é a condição permanente da saída para fora da propriedade, da expectativa do controle da situação, da ilusão da intencionalidade dirigida.
Você é estranjeirado pela condição intrínseca da hospitalidade como essência da cultura.
Esse jogo que estou estabelecendo mantém a possibilidade de se pensar a ficção como uma experiência com o limite.
Num certo momento no campo diafórico e também no campo ficcional não há mais retorno.
Há uma ultrapassagem transgressora da linha , do limite. No entanto, mesmo ali há o paradoxo proposto: “ The ultimate aporia is the impossibility of the aporia as such. The limit is too porous permeable and indeterminate.” (Derrida: 93)
O que estou propondo é a intersecção dos dois conceitos, a contaminação da diáspora pela disseminação, partindo desse pressuposto final da aporia, ou seja de que ela mesma deva ser ultrapassada, conforme assinala Derrida.
Pode-se a partir daí traduzir ficção como esse franchissement, esse évenement de uma chegada ou de um futuro.
Que só acontece como travessia de penetração Eu atravesso penetrando: I cross trhrough. São pontes entre margens Nós estamos na retórica dos limites. Se se pensa que vai se chegar a algum lugar fixo, já paralisou o instante.
A ficção joga com o sentimento profundo de uma primitiva paixão pela propriedade e se alterna nesse jogo com a experiência de uma absoluta iminência , a iminência do desaparecimento. Desaparecimento de que? Em principio desaparecimento da casa e da marca. Mas também desaparecimento da imediatidade
Qual é o elemento operador dessa transformação? Algo muda, o que faz mudar, o que trabalha fazendo deslizar a ilusão de propriedade?
Diferir inscreve-se nessa radical aleatoriedade da iminência sem retorno apropriante para o home. Essa despossessão originária relaciona-se com o tempo ético da narração (Homi Bahbha:98) com o modo de ver a interioridade do exterior: a interioridade do sujeito é habitada pela referencia radical e anárquica do outro. Este é o sentido também do conceito de hospitalidade incondicional.
The one who invites and receives truly begins by receiving hospitality from the guest to whom he thinks he is giving hospitality. It is as in truth he were received by the one he think;s he is receiving. (Derrida:93)
A identidade de uma linguagem pode somente afirmar-se como identidade de si própria, abrindo-se para a hospitalidade da diferença de si, ou da diferença consigo mesma.
Escrever é retirar-se . Não para a sua tenda para escrever, mas da sua propria escritura. Cair lon ge da sua linguagem, emancipá-la ou desampará-la, deixá-la caminha sozinha e desmunida. Abandonar a palavra. Ser poeta é saber abandonar a palavra. Deixá-la falar sozinha, o que ela só pode fazer escrevendo[...]Abandonar a escritura é só lá estar para lhe dar passagem, para ser o elemento diáfano da sua procissão: tudo e nada.(Derrida, 70)
A condição do escritor é a do effacement, apagamento da face, e da imediatidade do corpo.
Doação do tempo, doação de memória, o trabalho do inseto no poema Aporo faz surgir sem que ele o saiba a orquídea do labirinto.
Do da filósofa ação do tempo, trabalho de memória, doação da escrita no labirinto da recordação, o livro Sarah Kofman consiste nessa experiência com a ultrapassagem do limite
0 texto autobiográfico Sarah Kofman relata o momento indecidível de escolha na soleira da porta entre entregar-se ou não, apresentando-se ao sacrificio e salvando assim o conjunto sob sua proteção de pater familias . Diante desse terrível impasse, no primeiro e no último instante ,a mãe responde que o pai não está . Depois que o pai por fim se apresenta, ela ainda assim diz que está gravida , com isso ninguém poderia ser preso. A narradora se assusta com esta mentira que é dada para salvar quem está na casa não como hóspede clássico mas como o acolhido no interior da feminilidade. Ele teria se precipitado em direção ao sacrifício ou tendo se antecipado preservou o foyer? A narrativa acontece como relato dessa interrupção de si , interrupção do mestre, gerando a separação o distanciamento infinito, que é também o inicio e o motor da narrativa, o espaço entre pai e filha, a gerar a necessidade de contar esse preenchimento e essa busca.
Empreender essa hospitalidade: acolher a memória do pai como condição de hospitalidade de um lugar finito, o texto que se abre ao inifinito do fraseamento e que passa pelo abismo da separação . Nessa operação uma divisibilidade acontece. For/ da da narrativa, distanciamento da filósofa em direção à personagem menina, à alteridade ficcional.
Referências Bibliográficas:
BHABHA, Homi. O local da cultura.Belo Horizonte, Editora da UFMG, 1998.
DERRIDA, Jacques. Aporias, Stanford Universitiy Press, 1993.
_________,_______.A escritura e a diferença. São Paulo, Perspectiva, 1970.
KOFMAN,Sarah. Rue Ordener, Rue Labat. Rio de Janeiro, Editora Caetés, 2000.